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Responsabilidade Social agora?

Atualizado: 12 de dez. de 2023

Toda revolução requer muita disciplina até que a gente se adapte a viver com ela. Mas eu garanto que o resultado sempre é positivo.

“Somos uma empresa que valoriza a inovação, a tecnologia e o capital humano” eles disseram. E ai, forçados a trabalhar home office as empresas controlam o horário dos empregados, porque afinal, alguém precisa observar se um adulto (que dedica o seu tempo de vida para que a empresa lucre) realmente está trabalhando. Não estou dizendo que é certou ou errado, estou apenas problematizando e refletindo sobre esse comportamento, como de praxe.



“Gostaria de ter mais tempo para dedicar à minha família” eles também disseram. E curiosamente, neste período de pandemia, mais casais tem se separado, pais enlouquecendo com a energia dos filhos e a constante reclamação de que trabalhar em casa não é tão produtivo quanto se imaginava. E ai, qual é o nosso problema?

Acho que o problema seja o alinhamento entre o discurso que se prega para a finalidade do propósito que se espera. Em ambos os casos.

Estamos vivendo um momento histórico e me desculpem a sinceridade, mas não temos o direito de perder mais tempo com essas questões, enquanto do outro lado do mundo, que no caso, é fora da nossa bolha, o número de casos de violência doméstica tem aumentado, filas quilométricas tem se formado em agências bancárias para receber o auxilio emergencial, geladeiras de muitas famílias tem se esvaziado e leitos hospitalares tem se tornado artigo de luxo. E o que a gente tem a ver com isso, afinal?

Não sei vocês, mas eu não consigo mais usar um sapato de 400 reais pra caminhar numa calçada onde dorme outro ser humano. Pois, é, chegou a hora de pensar no COLETIVO, de ter responsabilidade social na marra.

Obviamente não é uma tarefa fácil, afinal, somos cria de uma construção social de patrimônio, sobrenomes e egocentrismo. As empresas não escapam dessa regra, pois muitos valores corporativos tem sido colocados em xeque.

Se nos questionarmos o porquê de determinada empresa existir, vamos nos assustar pela quantidade de organizações que foram criadas somente para fomentar a exploração social, o consumo e alimentar os interesses pessoais dos seus sócios. Antes que você me chame de comunista e me linche virtualmente, que diga-se de passagem está na moda, vou tentar explicar que não tenho uma solução prática para isso, afinal seria muita pretensão acreditar que meia dúzia de palavras seria suficiente para salvar o mundo. Estamos jogando xadrez como se fosse um jogo de damas, por isso, a solução está muito distante do nosso campo de visão. Talvez, debater sobre o assunto seja um bom começo.

Minha sobrinha de 6 anos me perguntou uma vez enquanto estávamos jogando no tablet dela (sim, ela tem um tablet com 6 anos e é muito estranho ainda para mim, porque aos 6 anos meu sonho de consumo era uma lousinha com uma caixa de giz) se algum dia seria inventada uma máquina para voltar no tempo. Ao invés de responder, perguntei porque ela queria saber isso e por qual motivo uma criança de 6 anos gostaria de voltar no tempo. A resposta aparentemente foi simples: “destrui uma casa de boneca quando eu era mais nova e hoje me arrependo, porque queria brincar com ela”. Sem cerimônias respondi que os erros são importantes pra gente aprender com eles e que esperava que ela pensasse sobre o assunto e que não destruísse mais seus atuais brinquedos. Ela ficou triste, porém não pronunciou uma palavra sequer, apenas pensou, como eu sugeri, e quem aprendeu ali fui eu.

Será que estamos falando muito e ouvindo pouco? Será que estamos reclamando demais e observando de menos? Será que estamos simplificando demais o complexo ou dificultando excessivamente o simples? Será que estamos aprendendo de verdade com os nossos erros? Eu realmente tenho pensado muito sobre essas questões e a resposta mais próxima que encontrei é que não tem uma máquina do tempo para nos beneficiar, mas tem uma para a humanidade. A minha é a Sophia, minha curiosa e inteligente sobrinha.

Penso que o que tenho feito hoje com meu propósito de vida não é para mim, não é para a empresa que trabalho, não é para a nossa geração, mas talvez seja para a próxima. Por isso, a minha e a sua responsabilidade (e a das empresas também!) tem que ser com essa galera. Anotem e leiam daqui a 20 anos.

O que eu posso fazer hoje para que a Sophia faça desse mundo melhor? Humildemente, na minha qualidade de tia, é estimular que ela seja livre, que pense, que construa seus próprios argumentos, que respeite as diferenças, que valorize aquilo que tem, que entenda que o que estamos vivendo é nossa responsabilidade também. Quero que ela me conte, daqui a 20 anos, que está feliz por estar em um projeto de vida com valores genuínos, que entenda que seus atos influenciam o coletivo e não porque recebeu um aumento de salário ou comprou uma bolsa de marca.

Parece utópico, mas vamos combinar que o nosso modelo não tem funcionado. Ou tem funcionado para alguns, mas como já enfatizei, “alguns” não tem nada a ver com COLETIVO. Não existe responsabilidade social quando “alguns" apenas são favorecidos, não acha?

Suspeito que terei que esperar a “minha máquina do tempo” me contar lá na frente...


(Publicado no Linkedin em 04/05/20)


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